quando você nasceu

Tudo começou por não querer registrar a realidade. Fui me apegando à ficção e conseguia entrar nos personagens. Sentia a dor que minhas palavras exalavam, mesmo sem, de fato, senti-la. Senti como se cada personagem fosse um amigo próximo meu, que o veria no dia seguinte na escola, para vivermos os melhores dias de nossas vidas. E eu me enganava todos os dias. Os amigos que me esperavam na escola não eram os que eu deveria levar para toda minha vida. Eles me faziam companhia enquanto não encontrava meus personagens por aí. Eu sempre soube que eles existiam. E encontrei um. Você. Só de bater o olho, soube que era o cara. Era um dos românticos, de tirar o fôlego. Um dos que tem o corpo incrível e fazia meu coração disparar só de compartilhar oxigênio. Mas eu não lembrava que você ainda não sabia que era meu. E eu não quis arriscar. Mesmo que não me encontrasse, você também tinha seus disfarces e eu era só uma louca qualquer. Contava para os meus disfarces quando você parecia seguir o plano e do nada, virava na contra-mão. Decidi me arriscar e te mostrar por qual rua seguir e você seguiu o meu caminho. Até que num estalo virou à direita, desviando do caminho. Não desisti. Acompanhei sua vida durante um tempo, me colocando estrategicamente em seu caminho, mas você nunca esbarrava em mim. Talvez não soubesse mesmo onde eu queria te levar. Mas, apesar de saber que era o certo, não me expus. Decidi que era melhor tê-lo conhecido e seu defeito ter sido não descobrir o "X" no mapa do que saber que não queria ser meu.
Não te acompanhei mais e você sumiu.
Até que naquele festival, você me viu e veio dar um "alô".
Minhas disfarces ficaram com seus disfarces. Sobramos e ficamos sem o que fazer. A música estava alta, o que não abria espaço para conversa e todos ao redor estavam se pegando. O clima não poderia ter ficado mais estranho. O "X" estava florescente naquele ponto e ele não enxergava nada. Até que um feixe de luz alcançou o fundo de seu globo ocular e me viu ali, de frente para você. Já que não tinha o que fazer, me deixou te agarrar como nunca e na semana seguinte você quis enxergar um pouco mais.
Foi quando seu personagem ganhou vida.

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